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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Um pouco do povo da floresta




Frases, pensamentos, causos, sonhos, teorias e conselhos daqueles que muito me ensinaram e ensinarão: os ribeirinhos da Amazônia

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De Dna. Preta (benzedeira, senhoria cabocla, de carcaça frágil, cabelos compridos e brancos, tranças de meninota, voz doce e serena, espírito forte) quando fui conhecê-lá:

- Conhecer? Tu veio foi abelhudar!

e riu...

Ainda dela:

-Tu vai lembrar a vida inteira dessa velha que dizia: malarinha, virosinha e denguinha. Nunca se esqueça.

Segundo ela, malária, virose e dengue são a causa de todas as outras enfermidades do corpo.

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Dedo de prosa com o Sr. Neco:

- Sr. Neco, como vai?

-Vai mais ou menos dona...

-Mais ou menos por que Sr. Neco? Aconteceu alguma coisa?

-Não. É que quando vai mais ou menos é porque tá bom... quando tá ruim, vai ruim. A gente vai mais ou menos porque tem como melhorar e como piorar. Não é mesmo dona?

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Sr. Carlos, da organização comunitária de uma ONG que trabalha com populações ribeirinhas:

- A gente tem que entrar pela porta que a comunidade oferece.

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Sr. Sabino, 76 anos:

- Quando chega nossa hora é vontade de Deus e não tem jeito de mudar isso. O que não pode acontecer é um médico deixar de prestar socorro e de mandar fazer os exames que precisa porque ai tem gente que morre antes da hora.

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Sr. Raimundo, viajante vaga-Brasil:

- Camaradagem na cidade grande é cabeça baixa e dinheiro no bolso.

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Fabrício, 17 anos, cursa a 8ª série, menino inocente, puro. Diz que um dia fará odontologia. Sonha com a vida na terra da garoa. De noite gosta de observar as luzes dos garimpos no meio do Madeira que, de longe, lembram luzes de uma cidade.

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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O tempo circular no ciclo feminino (ou o ciclo feminino no tempo circular)

Era uma vez Talita Hernandes que, com Álvaro Duque, teve um (talvez alguns) final de noite feliz regado a muita salsa.
Certo dia, Álvaro conheceu Manuela Oliveira e então ela teve muitos finais de noite e começos de manhã felizes ao lado dele.
Houve um tempo em que as noites e as manhãs custavam a passar, Álvaro andava esquisito, dividido... O entardecer de Manuela começou a esfriar e os primeiros raios de sol do dia demoravam para aparecer, o tempo estava nublado, ela pressentia que o inverno logo chegaria. Tinha razão, a temporada de manhãs cinzentas e noites geladas se anunciava. Entretanto, nesses mesmos tempos, do outro lado da cidade, para Lara Bispo, as noites eram quentes e as manhãs ensolaradas.
Manuela não mais almejava manhãs ensolaradas e noites quentes, queria apenas períodos de calmaria, clima tênue, primavera florescendo a amizade... Mas Álvaro era casca dura, 8-80 e a deixou no inverno. Contudo, em um dia qualquer dessa estação ingrata e fria, de repente, não mais que de repente, ela sentiu aquela brisa quente que veio lá do noroeste e a assoprava delicadamente. Manuela ponderava: “Será o verão chegando? Não pode ser! É uma viração momentânea!” Abril, maio, junho... os meses foram passando e aquele vento leve e delicado se transformou em um mormaço, um calorão daqueles que deixa qualquer um molhado e sem fôlego! Novamente, Manu vivia noites calientes de verão ao lado de Javier Gonzalez. Julho chegou e o mar a chamou. Antes de partir, no fundo dos olhos dele, viu uma paisagem: árvores carecas, folhas secas, chão cheio. Ela sabia, o outono se anunciava. Ainda assim, escolheu não impedir, precisava partir. O mar gritava por ela, o corpo dela gritava pelo mar. Manuela, magneticamente, foi a procura do imenso azul tal como o sul vai a procura do norte. Ela precisava, numa onda foi embora. Com Manu em alto mar, Javier conheceu Talita e então passaram a ter noites dançantes e felizes de verão em pleno mês de julho!
De forma inesperada, naquela cidade estranha, de estações esquisitas que coexistiam e se excluíam, a brisa, o vento, o mormaço, tudo parou... Mas logo, o período da vez se definia! Javier retornou à pátria, deixara Talita no inverno. Manu, noutra onda voltou e já não entendia mais o clima da cidade... tudo tão alheio, tempo incerto. Pensara: “Essa sensação de ponto de interrogação não há de ser nada além de um choque térmico.” Foi quando Javier, mesmo longe, soprou uma brisa leve, tênue, agradável e esclarecedora transformando a interrogação em exclamação. E agora em outubro, Javier e Manuela vivem a primavera, a amizade floresce e aquela brisa que ele sopra lá de longe, sempre tão aconchegante, prediz que em janeiro será verão, mas desta vez a brisa soprará na direção oposta e a sensação será de reticências.